Há uma grande festa popular em Salvador que não está vinculada a santos ou orixás, não acontece no verão nem guarda, diferentemente de outros eventos do extenso calendário festivo da Bahia, maiores compromissos com a atração de turistas, fonte cada vez mais importante de receitas para o estado. De caráter cívico, essa festa repetida a cada 2 de julho – data que os baianos conhecem como a da independência da Bahia – celebra, na verdade, a vitória conquistada pelos brasileiros na guerra travada pela independência do Brasil na província da Bahia, ao longo de 17 meses.
Entenda-se: guerra, aqui, não é figura de retórica. É guerra mesmo, com sua triste substância de violência desenfreada, dores, legião de feridos, mortes, destruição de edificações, colapso dos serviços urbanos etc., travada nos moldes das guerras do começo do século 19, é claro, de fevereiro de 1822 a julho de 1823. Como outras, gerou seus heróis – neste caso, quase todos originários das camadas mais pobres da população e cultuados hoje ainda com carinho pelos baianos. Maria Quitéria, João das Botas e o Corneteiro Lopes são nomes inesquecíveis nesta saga inexistente nos livros didáticos de História do Brasil e, portanto, desconhecida da maioria dos brasileiros.
Aliás, injustamente desconhecida, segundo o historiador Luís Henrique Dias Tavares, que neste 28 de janeiro completa 80 anos, boa parte dos quais dedicados à pesquisa incansável da participação baiana no processo de independência do Brasil. Em dezembro último ele lançou um novo livro sobre o tema, Independência do Brasil na Bahia (Editora da UFBA, 245 páginas, R$ 35), título que vem se somar a outros 22 que publicou, distribuídos entre os estudos históricos e a ficção. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na qual se aposentou em 1991, depois de 38 anos de trabalho, entre 1977 e 1986 Luís Henrique Dias Tavares esteve algumas vezes em períodos de pós-doutoramento na Universidade de Londres.
Natural de Nazaré das Farinhas, no Recôncavo baiano, casado com dona Laurita, pai de dois filhos e uma filha, seis netos e uma bisneta, até agora, foi com uma infinita calma baiana, temperada com muita simpatia, que o professor Luís Henrique concedeu em novembro passado, a Pesquisa FAPESP, a entrevista da qual publicamos a seguir os principais trechos.
Professor, qual é a sua relação com a UFBA hoje?
— Sou professor fundador do mestrado e doutorado em história e ciências sociais na Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas. Sou também orientador na Faculdade de Educação. E, a partir do final de 2003, componho uma comissão que está organizando os eventos direcionados aos 60 anos da universidade, que se realizarão em 2 de julho de 2006.
Já que será em 2 de julho, por essa data caímos logo no tema da independência da Bahia. E a pergunta é: por que quase ninguém fora da Bahia sabe que aqui houve uma guerra pela independência?
— Por causa das deformações no ensino da história do Brasil e das diferenças regionais em nosso país. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ganharam uma posição de destaque por causa da proclamação da República e pelo desdobramento da chamada Revolução de 1930, que conduziu o país a uma nova fase, que tentou unir formas democráticas audaciosas e formas autoritárias, mesquinhas, ditatoriais, que atrasaram o Brasil em pelo menos 50 anos. É o que está na base desse desconhecimento da luta pela independência do Brasil, e não só na Bahia. Essa província travou uma guerra que durou mais de um ano. Custou muitas vidas, sacrifícios e contribuiu também para o maior empobrecimento da província.
A guerra pela independência aconteceu em alguma outra província?
— Da maneira como aqui se desenvolveu não. Há uma situação de luta permanente em Pernambuco, junto com as províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, com uma certa extensão ao Piauí e provavelmente ao Maranhão.