| © Geison Munhoz |
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A pesquisa médica acadêmica nos EUA, clínica ou básica, é na sua quase totalidade iniciada e desenvolvida por fellows (pós-doutores), sob a orientação de um mentor, enquanto os técnicos de laboratório têm em geral um papel de suporte e apoio aos fellows. Assim sendo, a expectativa seria de que todos os fellows fossem bem remunerados, tivessem direito a férias, seguro-saúde e outras vantagens. Frequentemente isso não é verdade. Os fellows cidadãos americanos ou os estrangeiros que têm o green card (os residentes permanentes nos EUA), estão em melhores condições para obter---- uma posição bem remunerada. Esses podem receber salários pagos diretamente pelos National Institutes of Health (NIH) através dos grants (bolsa) de desenvolvimento de carreira (series F, K e T), cujos valores obedecem a uma escala que varia em função do número de anos de pós-doutorado (variam de US$ 37 mil e US$ 51 mil). Entretanto, a grande maioria dos fellows estrangeiros não pode se beneficiar desses grants, uma vez que, certo ou errado, os NIH só investem na carreira de cidadãos americanos ou residentes permanentes nos EUA.
Essa limitação imposta pelos NIH, associada à enorme oferta de fellows estrangeiros, faz com que, na maioria das vezes, as condições dos estrangeiros fiquem aquém do aceitável. Para pagar seus salários, os mentores não têm muitas opções: têm de usar verbas dos seus próprios grants de pesquisa – normalmente destinadas ao pagamento de insumos para seus experimentos. Muitos mentores fazem a coisa certa e acabam usando a tabela dos NIH sem discriminação. Entretanto, frente à crise financeira dos NIH, muitos mentores pagam salários substancialmente mais baixos aos fellows estrangeiros. É difícil acreditar, mas são muitos os casos em que, para estagiar/trabalhar com pesquisadores famosos, fellows estrangeiros aceitam receber baixos salários, comprometendo sua qualidade de vida. A única alternativa é o retorno ao país de origem.
Nem todos os mentores são monstros. Embora alguns realmente sejam. Grande parte do problema está no arrocho do financiamento de pesquisa nos EUA. Num caso típico, por meio de um mecanismo conhecido como R01, o pesquisador solicita aos NIH verbas no valor de US$ 250 mil por ano, por cinco anos. Se o projeto for aprovado (apenas cerca de 10% das solicitações o são), o repasse das verbas cai automaticamente para US$ 200 mil por ano durante quatro anos. Com esse valor, o mentor tem que pagar o seu salário, uma pequena fração do salário de eventuais colaboradores, insumos para pesquisa (equipamentos, reagentes e animais), o salário de um eventual técnico e o salário do fellow. O dinheiro é contado. Qualquer coisa que o mentor puder economizar no salário do fellow é imediatamente transferida para os insumos da pesquisa.
Na tentativa de conter esse abuso, o Departamento de Estado Americano estabelece um salário mínimo de cerca de US$ 30 mil por ano como condição essencial para fornecer o visto J1 (de intercambio acadêmico). Entretanto, a cada dia fico sabendo de novos mecanismos para burlar essa norma e reduzir o valor do salário básico pago aos fellows estrangeiros. Por exemplo, o mentor oferece US$ 20 mil por ano como salário básico e solicita ao fellow um extrato bancário de sua conta corrente demonstrando a existência de pelo menos US$ 10 mil para “completar” o salário oferecido pelo mentor. Sem essa carta, o consulado americano não fornece o visto J1. Outros fellows completam o salário básico apresentando cartas de instituições de seus países de origem prometendo o pagamento da diferença para os US$ 30 mil por ano. Entretanto, algumas vezes com o conhecimento do fellow e do mentor, essas promessas não se concretizam e, não existindo controle pelo Departamento de Estado, o fellow acaba trabalhando por apenas US$ 10 mil por ano.
Antes de aceitar um emprego de fellow nos EUA, os candidatos devem ter certeza de que o salário oferecido é condizente com o custo de vida na cidade em que irão morar. Nos grandes centros metropolitanos dos EUA, um salário de US$ 30 mil por ano é o mínimo para permitir a sobrevivência. Isso porque, desse valor bruto, desconta-se imposto de renda federal (IRS), imposto de renda estadual (somente em alguns estados), seguro-saúde e seguro de repatriação – que cobre a volta do fellow que não tem dinheiro para comprar a passagem de retorno e é válido inclusive no caso do fellow morrer durante o estágio. Depois de dois anos, o fellow passa a ser considerado residente nos EUA para fins fiscais, sendo também obrigado a pagar contribuição social (social security) e imposto de renda federal sobre a renda global, ou seja, também sobre eventuais rendimentos recebidos no seu país de origem! Depois de todos esses descontos, com o salário líquido o fellow tem que pagar aluguel de aproximadamente US$ 1 mil por mês para um apartamento vazio, o qual pode ser reduzido para cerca de US$ 750 por mês se o fellow morar com um ou mais companheiros de quarto. Note que, se o fellow tiver família, a situação torna-se insustentável.
Felizmente, a maior parte dos fellows que conheço recebe pelo menos o mínimo estabelecido pelo Departamento de Estado Americano. Os poucos que não recebem esse mínimo acabam aceitando a condição por encará-la como temporária, durante a qual usam seus próprios recursos como investimento na carreira acadêmica. Ao mesmo tempo, pesa muito a falta de melhores perspectivas nos seus países de origem, inclusive no Brasil, tranformando-os em alvos fáceis dos aproveitadores. Aliás, essa é uma condição semelhante àquela imposta aos imigrantes ilegais que se submetem a receber baixos salários simplesmente porque não existe emprego em seus países de origem. Enfim, cada um conhece o seu limite. A combinação de pressão para publicação, distância da família, condições climáticas adversas e, além de tudo, baixos salários, pode levar à loucura. E, não raramente, leva mesmo.