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Suplemento Especial
Carlos Alberto dos Santos
Professor da Federal do Rio Grande do Sul desmonta mitos criados sobre o ganhador do Nobel
© Marcia Minillo
Santos: os caminhos do gênio até 1905

Albert Einstein eletrizou o mundo acadêmico ao publicar quatro artigos científicos revolucionários no ano de 1905, quando tinha apenas 26 anos de idade. Explicou o efeito fotoelétrico, que lhe renderia o Nobel de Física de 1921, e o movimento browniano, que constitui uma evidência experimental da existência dos átomos. Detalhou o conceito de relatividade restrita, estabelecendo uma relação entre os conceitos de tempo e distância; e deduziu a famosa equação relacionando massa e energia E = mc2. As atividades do cientista nos anos que antecederam a publicação dos artigos e os mitos criados sobre os primórdios de sua vida acadêmica foram o mote da palestra “A preparação de Einstein para seu ano miraculoso”, proferida por Carlos Alberto dos Santos, professor aposentado do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), colunista da revista Ciência Hoje e autor da ficção O plágio de Einstein (editora WS). A apresentação de Santos foi realizada na manhã do dia 19 de outubro, no pavilhão Armando de Arruda Pereira, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

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Com base em informações obtidas de fontes primárias, como notas autobiográficas, cadernos escolares, cartas para a mulher, Mileva Maric, e para o amigo Michele Besso, textos e anotações reunidos em 29 volumes publicados pela Universidade de Princeton, além de fontes secundárias, como duas biografias de Einstein, Santos desmontou um conjunto de falsas idéias que, vez por outra, aparecem associadas ao gênio da física. Uma delas reza que Einstein talvez não tenha sido assim um “einstein” e que suas teorias revolucionárias acabariam propostas por outros pesquisadores da época se ele não tivesse existido. Santos mostrou, ao contrário, que Einstein exibia na infância e na adolescência sinais de um brilhantismo incomum para crianças ou jovens de sua época e seu meio. Aos 5 anos recebeu do pai uma bússola de bolso e inferiu que a agulha apontava sempre para um mesmo lugar porque havia alguma força exterior a atrair a agulha. “Uma pessoa com 4 ou 5 anos imaginar que existe uma ação externa é algo extraordinário”, disse Santos. Na idade adulta, descreveria a “impressão profunda e duradoura” desta experiência. Aos 10 anos, ganhou de um tio engenheiro um livro de geometria e deduziu sozinho o teorema de Pitágoras. “Quando chegou a hora de aprender na escola, ele viu que o teorema de Pitágoras era aquilo que ele tinha pensado quando viu o livrinho que o tio havia dado”, afirma o professor. Aos 17 anos fez uma pergunta que desconcertou um professor da escola que freqüentava em Aarau, na Suíça: o que aconteceria se ele caminhasse do lado de uma onda eletromagnética com a velocidade próxima da velocidade da luz. “Aquilo não era coisa que se tratasse no ensino médio. O pobre do professor, obviamente, não soube dizer nada. Esse problema ele resolveu dez anos mais tarde com o artigo da relatividade”, disse Santos.

Outro mito, esse bastante disseminado, reza que Einstein foi um mau aluno. Decerto, diz Carlos Alberto dos Santos, o jovem Einstein não se encaixava no estereótipo do aluno aplicado. Exasperavam-no a rigidez escolar e a sensação de que poderia aprender mais com os livros do que nas salas de aula, afirmou o professor. “Mas, quando queria, ele sabia ser um aluno brilhante”, diz Santos. Einstein detestava tanto a escola de ensino médio que freqüentava na Alemanha que simplesmente a abandonou. “No meio do ano, foi para casa sem terminar o segundo grau. Tinha 15 para 16 anos. Ele conseguiu que um médico amigo da família desse um atestado dizendo que estava com estafa e precisava descansar. Assim  ele justificou a saída dele lá para o diretor do colégio. Ao mesmo tempo conseguiu que um professor de matemática – e vejam como esse sujeito premeditava as coisas – assinasse uma carta dizendo que ele era uma criança prodígio, que sabia muita matemática. E o professor deu. Havia professores que odiavam Einstein porque ele tinha um jeito arrogante. E tinha professores que gostavam dele. Poucos, mas tinha”, diz Carlos Alberto dos Santos. Em casa começou a se preparar para se submeter aos exames de ingresso numa faculdade – não era necessário ter o ensino médio completo, mas, nesse caso, exigia-se que o candidato fizesse uma série de provas. “Para se aquecer, ele escreveu seu primeiro artigo científico, sobre investigação do estado do éter no campo magnético. Havia um monte de erros, mas o fato importante é que ele já pensava nesse tipo de problema aos 15 anos. E tinha o peito de escrever”, disse o professor Santos.

Biógrafos enganados
A idéia de que Einstein era mau aluno também é fomentada pelo fato de ele ter sido reprovado no exame de ingresso da Escola Politécnica de Zurique, a Eidgenössische Technische Hochschule (ETH). De fato, ele fracassou em sua primeira tentativa de entrar na instituição, mas Carlos Alberto dos Santos chama a atenção para um conjunto de circunstâncias que marcaram o malogro. Aos 16 anos, Einstein nem sequer tinha idade suficiente para participar do exame. Só conseguiu abrir um precedente ao apresentar a carta do professor de matemática que o tratava como superdotado, além de um pedido de um influente amigo de sua família, sócio de um banco em Zurique. Há várias versões sobre seu mau desempenho: alguns biógrafos dizem que ele foi muito mal no exame oral de francês, que conhecia apenas sofrivelmente, outros afirmam que o problema foi a prova de biologia ou de interpretação lingüística. Mas o desempenho de Einstein nos exames de física levou um professor da disciplina na universidade, Heinrich Friedrich Weber, a convidar o jovem estudante a freqüentar suas aulas como aluno ouvinte, privilégio proibido pela instituição. A banca sugeriu que ele tentasse de novo no exame seguinte – quando efetivamente ingressou na escola – e que, nesse meio tempo, concluísse o ensino médio que, entediado, Einstein havia abandonado. Matriculado na escola de Aarau, finalmente se sentiu estimulado e viveu um período tranqüilo de estudos. Também colaborou com o mito do mau aluno o boletim de Einstein em Aarau. No ano letivo de 1895 a 1896, suas notas são quase todas muito baixas, ao contrário do ano letivo seguinte, de 1896 a 1897, quando alcançam o teto máximo em várias disciplinas. Santos explicou que os biógrafos de Einstein foram enganados pelos números. As notas são díspares porque, no primeiro ano, a escala vai de 6 (nota mínima) a 1 (nota máxima), invertendo-se a regra no ano seguinte.

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