| © Sinclair Stammers/Science Photo Library |
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| Anopheles: combatido no país a quase um século, sobrevive na Amazônia |
Na manhã de 2 de abril deste ano o biomédico brasileiro Rogerio Amino atravessou a rua Dr. Roux e caminhou apressado rumo a um prédio de fachada moderna do 15º arrondissement, um bairro de classe média de Paris. Passou por uma porta de segurança e seguiu por um labirinto de corredores antes de entrar na sala escura onde duas pesquisadoras operavam um microscópio confocal a laser, que permite observar e reconstruir imagens em três dimensões de tecidos vivos. Numa tela semelhante à de um computador, elas acompanhavam o movimento de pequenas bolas verdes fluorescentes. Eram exemplares do parasita causador da malária que se desenvolviam no interior de células da pele. Numa rápida conversa Amino constatou que o experimento seguia como plane-jado e voltou para seu laboratório, do outro lado da rua, a menos de 300 metros dali. Chefiado pelo médico francês Robert Ménard, o grupo que o biomédico brasileiro integra desde janeiro como pesquisador contratado na Unidade de Biologia e Genética da Malária do Instituto Pasteur, em Paris, trabalhava com atenção redobrada, repetindo cada etapa do experimento.
A equipe sabia estar diante de uma descoberta importante sobre o ciclo de vida do plasmódio, organismo de uma só célula que infecta por ano cerca de 250 milhões de pessoas no mundo – em especial na África, na Ásia e na América Latina – e mata quase 1 milhão, a maioria crianças com menos de 5 anos.
A novidade perseguida por Amino e parte da equipe de Ménard é que no organismo de camundongos – e possivelmente no humano – o parasita da malária não se desenvolve e amadurece exclusivamente nas células do fígado, onde, em dois dias, cada protozoário gera milhares de cópias capazes de invadir as células vermelhas do sangue, causando os calafrios, a febre alta e as dores musculares intensas típicos da malária. Injetados na pele pela picada de fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles, alguns exemplares do plasmódio permanecem ali, onde se reproduzem e alcançam o estágio em que se tornam capazes de penetrar nas células sangüíneas.
Apresentada em maio num seminário para pesquisadores da comunidade européia no Pasteur e prestes a ser publicada em uma revista científica internacional, a descoberta está longe de representar a cura para a malária, mal que possivelmente acompanha a espécie humana desde seu surgimento na África 200 mil anos atrás. Mas a identificação dessa fase até então não imaginada do ciclo do protozoário deve contribuir para a busca de formas mais eficientes de combatê-lo. É que os compostos usados para eliminar o plasmódio – a exemplo da cloroquina ou das artemisinas – agem apenas na fase sangüínea da infestação, na qual um único protozoário gera dezenas de cópias a cada 24 horas no interior das hemácias, as células vermelhas do sangue. “Mesmo a primaquina, composto capaz de eliminar os parasitas no fígado, não atingem os que se desenvolvem na pele”, explica Amino. Assim, o mesmo órgão que mantém os mamíferos em contato com o ambiente e os protege de contaminações pode funcionar como reservatório de parasitas da malária. “É preciso encontrar uma forma de atingi-los ali”, diz.
E não são poucos os protozoários que se instalam na pele, onde podem permanecer vivos por semanas. Nos experimentos feitos no Pasteur, fêmeas do mosquito Anopheles stephensi, transmissor da malária humana na Ásia, alimentaram-se na orelha de camundongos. Na picada, os insetos injetaram dezenas de parasitas marcados com uma proteína verde fluorescente na pele dos animais. Cerca de 10% dos protozoários da espécie Plasmodium berghei, que causa a doença em roedores, alojaram-se a poucos milímetros da picada – uma parte migrou para os folículos pilosos, estrutura que envolve os pêlos, sem resposta imune ativa. “Há poucos lugares tão privilegiados para um parasita sobreviver no organismo de mamíferos”, diz Amino.