Curioso paradoxo essa imposição a um retorno forçado, após o longo caminho percorrido pela mulher para chegar, com independência, ao mercado de trabalho. “Afinal, se o homem encarna a nova figura do indivíduo livre, solto, senhor de si, a mulher, até há algumas décadas, continuou a ser pensada como um ser naturalmente dependente, vivendo para os outros. A ideologia da mulher no lar foi edificada na recusa de generalizar os princípios da sociedade individualista moderna. Identificada ao altruísmo e à comunidade familiar, a mulher não seria do domínio da ordem contratualista da sociedade, mas da ordem natural da família”, observa o filósofo francês Gilles Lipovetsky em seu A terceira mulher. Só recentemente, porém, “o trabalho feminino não aparece como um último recurso, mas como uma exigência individual e identitária, uma condição para realizar-se na existência, um meio de auto-afirmação”, afirma Lipovetsky. Dessa transformação sem precedente no modo de socialização e de individualização do feminino, uma generalização do princípio do livre-governo de si, uma nova economia dos poderes femininos nasceria a chamada “terceira mulher”. “A primeira era diabolizada e desprezada; a segunda, adulada, idealizada, instalada num trono; nos dois casos, subordinada ao homem, pensada por ele, definida em relação a ele. A terceira, por sua vez, é uma autocriação feminina.” A liberdade, nota Eliane, “tem sido historicamente considerada uma prerrogativa masculina. No entanto, a liberdade retratada pelas minhas entrevistadas é simbolizada pelo ato repetitivo de circular livremente em um espaço que elas dominam. Sozinhas, elas aprendem a dar conta de si mesmas”.
Se observarmos, então, o processo histórico, como propõe Lipovetsky, esse estilo de vida, que se firma cada vez mais nos grandes centros urbanos, sobretudo nas camadas médias, estaria, por sua vez, relacionado com o processo de individualização crescente que se observa nesses segmentos, uma característica da modernidade. Como nota Berquó, este mundo transformado pelas lutas feministas impulsionaria as mulheres “independentes” à autodeterminação, favorecendo determinadas “escolhas” e investimentos em outros projetos individuais e não apenas no casamento. Essa dualidade entre “vida simples comunitária” e “individualismo moderno” pode trazer valorações diferenciadas, em que a primeira opção, cercada de solidariedade, se contraporia à segunda, de caráter “objetivo”, “egoísta”, “competitivo”. Eliane tem ressalvas a essas dicotomias. “Se o individualismo for compreendido como uma busca orientada prioritariamente para si mesmo e não como atomização social, autocentramento ou isolamento, esta noção encontra ressonância nas histórias das mulheres ‘sós’ entrevistadas”, continua a pesquisadora. “Ao lado de um processo de individualização – por exemplo, a idéia de um projeto focado na carreira, que as leva à decisão de morar sozinhas, a princípio por necessidade, depois por adaptação e finalmente por prazer – elas mantêm sólidas relações amorosas, sexuais, de amizade e familiares.”
Ainda assim, “embora adotado como um estilo de vida, que as distingue socialmente como mulheres independentes, autônomas e senhoras de si, o morar só não existe fora da vida social mais ampla e está marcado por outros tipos de dependência e contingenciamentos”. É possível amar e ser sozinho ao mesmo tempo. Morar só não significa ficar sem par para relações e Eliane é uma crítica ferrenha da insistência da mídia em vincular as mulheres “sós” como privadas de vínculos amorosos e sexuais. Ou, nas palavras da socióloga americana Kay Trimberger, da Universidade da Califórnia, autora de The new single woman, como o estudo de Eliane, baseado em entrevistas com mulheres que vivem sozinhas, “mesmo que elas sintam que gostariam de ter um companheiro (a) fixo (a), elas estão certas de que suas vidas não dependem disso e que há outras formas de viver” e que “a ‘solteirice’, no futuro, será vista como algo mais do que apenas um intervalo entre relações matrimoniais, se transformando num way of life, com muitas variações, mas um caminho de vida satisfatório com suas demandas e recompensas”.
As pesquisas de Eliane também mostraram que a mulher “só” não necessariamente abre mão da maternidade. Afinal, o que nos governa, como nota Lipovetsky, não é um modelo de reversibilidade entre os sexos, mas um duplo modelo individualista, reinscrevendo a diferença masculino/feminino. Dessa forma, o francês também não acredita que a maternidade possa ser abolida desse novo esquema. “As mudanças de excepcional amplitude na condição feminina não modificarão essa constância. Declínio progressivo do papel materno em benefício dos valores profissionais? Nada permite afirmá-lo. Há uma reciclagem histórica do papel materno, não o abandono do modelo.” Mais: escolher viver uma estética particular que privilegia o silêncio, o distanciamento calculado e as relações de amor e amizade em bases igualitárias é uma possibilidade acessível a apenas algumas mulheres altamente escolarizadas, profissionais e independentes financeiramente, que podem transitar entre contingências e desejos, avisa Eliane. “Se o single lifestyle e as residências de uma pessoa continuarão a se impor como uma tendência, não tenho uma conclusão, mas, talvez, as solteiras estejam reinventando a ‘solidão’, transformando-a em ‘aventura’”, completa a pesquisadora. Nem só, nem mal acompanhada.