| © Leda Catunda, Retrato, 2002/Cortesia Galeria Fontes Vilaça |
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Sob o título sugestivo de “A tragédia das solteironas”, uma matéria da Revista da Semana, de 1937, é exemplar na forma de abordar o “tema”: “Todas têm ódio às moças que se casam. Possuem, em maior ou menor dose, o instinto da maldade. A história de milhares de tragédias conjugais nasce dessas almas torvas, às quais tudo se deve perdoar pelo muito que penaram. Casais felizes devem fugir das solteironas como o diabo da cruz. A Medicina sabe que os enfermos de certas doenças contagiosas têm um prazer satânico em transmitir sua doença às pessoas sadias. Existe, na psicopatologia das solteironas, fenômeno análogo”. O tom, dramático e antiquado, pode ter mudado, mas a essência dessas idéias, infelizmente, ainda permanece viva. “A solteirice tem sido recorrentemente representada como uma falta essencial, uma anomalia social, jamais um caminho, entre outros, escolhido como parte de um projeto de vida que pode ser vivido positivamente”, explica Eliane Gonçalves, autora da tese de doutorado recém-defendida na Unicamp “Vidas no singular: noções sobre ‘mulheres sós’ no Brasil contemporâneo”, orientada por Adriana Piscitelli.
Após trabalhar com um grupo de mulheres com idades entre 29 e 53 anos, sem filhos e morando sozinhas há mais de 2 anos, a pesquisadora “contesta a idéia de que as mulheres estão sós porque esperam seu príncipe encantado, foram preteridas em função das mais jovens ou por motivos afins”, afirmando que “há escolhas que elas vão fazendo ao longo da vida, como privilegiar a carreira para marcar seu lugar no mundo”. Segundo Eliane, sob a lógica do “familismo”, que pressupõe o par e o casamento com lugares privilegiados de saúde e felicidade, a mulher “só” é percebida como solitária e infeliz, frustrada e insatisfeita, já que sua existência seria medida e avaliada segundo a perspectiva da mulher casada ou que possui um par masculino. Ainda segundo o estudo, tais conceitos não seriam coisas do passado, como no texto acima. “Nos estudos de população e na mídia, as noções mais proeminentes que atravessam a teoria social e, em menor escala, alguns estudos feministas estão associadas à idéia de ‘falta’, cristalizada na noção de solidão”, avalia.
Para a demografia, continua, a solidão seria efeito de uma diferença culturalmente produzida e materializada na desproporção sexo/idade no mercado matrimonial. Após analisar vários “clássicos” demográficos, entre os quais Pirâmide da solidão? (1986), de Elza Berquó, a pesquisadora teria percebido “as limitações de categorias clássicas consideradas, atualmente, por estudiosos dos estudos de população, insuficientes para analisar e compreender as transformações ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas”. A mídia, por sua vez, continua, “traduz e reinterpreta noções inspiradas nos discursos acadêmicos da demografia ou dos estudos de população e outras áreas disciplinares”. Segundo Eliane, atenção especial é igualmente concedida, na mídia, ao que aparece de modo incipiente ou está ausente dos estudos de população: a idéia de sociabilidade como marca de um certo estilo de vida das pessoas que moram sozinhas e a expressão “novas solteiras”, caracterização aparentemente restrita a essas produções. “Mídia e demografia apresentam confluências nas análises sobre a necessidade de alguma forma de intervenção externa para favorecer o encontro par/marido, chegando mesmo a fazer sugestões explícitas. Ambas convergem também na forma de analisar o ‘morar só’ como uma expressão do individualismo que se acentua nessa fase da modernidade, aspecto reforçado por vozes de intelectuais das ciências sociais e das áreas ‘psi.’”
Os números parecem acompanhar a tendência. Segundo o mais recente World Fertility Report, da ONU, a média global de idade de casamento entre as mulheres pulou de 21,2 anos nos anos 1970 para 23,2 hoje. Nos países desenvolvidos a diferença é ainda maior: de 22 para 26,1 anos atualmente. No Brasil, a pesquisa Sexo, casamento e economia, feita pela Fundação Getúlio Vargas, indicou a presença de cerca de 19 milhões de mulheres com mais de 20 anos que vivem sem marido ou companheiro e que, por isso, têm renda 62% superior à recebida pelas casadas ou informalmente unidas, o que levou a um aumento na “solteirice” de 35% para 38%. Há 30 anos, seis em cada dez mulheres eram casadas.
Na base de tudo estão as conquistas feministas. “Várias das noções atribuídas às mulheres ‘sós’ nos distintos contextos remetem a algumas idéias proclamadas pelo feminismo. Nos estudos de população, na mídia e nas percepções das minhas entrevistadas, educação e trabalho qualificado e remunerado são considerados a via privilegiada pela qual as mulheres adquirem independência e conquistam autonomia”, nota Eliane. Essa ampliação da autonomia, continua a pesquisadora, deu a chance a um grupo de mulheres, educadas e profissionais, de decidir por si mesmas e ter o poder de, inclusive, romper com os estereótipos clássicos da “solteirona”. No entanto, segundo ela, é possível observar o efeito da importância dada à conjugalidade e à família quando o morar só, que não modifica o estado civil de alguém, é percebido como um ato de isolamento social, de enfraquecimento das regras de aliança. Assim, observa Eliane, a demografia, mesmo concedendo o conceito do ganho das mulheres, salienta “a problemática da mulher madura, com mais de 30 anos, colocando-a como vítima do excedente de mulheres que disputam, em desvantagem com as mais jovens, reforçando a necessidade do par”. É a “pirâmide da solidão”.
O conceito fala das chances decrescentes de mulheres mais velhas de se casarem considerando-se as normas sociais vigentes, nas quais os homens procuram parceiras mais jovens, o que traz para as outras faixas etárias superiores o prognóstico de que continuem a viver sozinhas. “Considerar como fatalidade uma mulher que não se casa, qualquer que seja a motivação, denota a centralidade dada ao estatuto do casamento como um valor em si mesmo. A eleição pelo casamento envolve estratégias políticas”, adverte a autora. Para ela, a própria Berquó, analisando dados do Censo de 1980, observou que as moradias unipessoais eram ocupadas por homens solteiros e mais jovens e por mulheres mais velhas com maior escolaridade, o que permitiria concluir que, mais do que um desequilíbrio do mercado matrimonial, estaria em ação, nas grandes cidades, uma mudança de estilo de vida. Mas o conceito da pirâmide ganhou vida própria e, por vezes, até vulgarizado e mal compreendido, passou a ser usado de forma indiscriminada como panacéia explicativa.