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Estudos apontam 11 áreas do conhecimento em que a pesquisa brasileira brilha no mundo
© Claudius

Dois estudos publicados na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências traçaram um retrato inédito do que o Brasil vem produzindo de mais relevante na cena científica internacional. Os pesquisadores Rogerio Meneghini e Abel Packer, do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), debruçaram-se sobre a nata da produção acadêmica nacional entre os anos de 1994 e 2003: o conjunto de 248 artigos científicos citados mais de cem vezes em outros artigos de publicações vinculadas à base de dados Thomson-ISI (Instituto para Informação Científica, na sigla em inglês). Essa amostra representa 0,23% dos 109.916 artigos de brasileiros publicados em revistas indexados no ISI naquele período. A repercussão de um paper é ordinariamente medida pelo número de menções que ele recebe em outros artigos.

O passo seguinte foi tentar agrupar os 248 artigos em áreas do conhecimento. Foi possível encontrar denominadores comuns em 114 deles, levando os autores a concluir que 25 núcleos de excelência brasileiros obtiveram destaque especial em 11 diferentes campos:

Entre os 12 artigos sobre a Floresta Amazônica, a maioria sobre as conseqüências da exploração da floresta, oito estavam vinculados ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), sediado em Manaus. “É um dado bastante positivo, porque demonstra a viabilidade de produzir pesquisa de alto nível fora dos grandes centros”, diz Meneghini. A proximidade com o objeto de estudo não explica o impacto. “Muitas instituições de outros países também promovem pesquisas na Amazônia”, afirma.

Cirurgias cardiovasculares são o mote de 18 dos artigos mais citados. A maioria deles está vinculada a grandes redes de pesquisa internacional e muitos têm a ver com um mesmo assunto: a eficácia de técnicas como a angioplastia e a implantação de stents para desobstrução de artérias, levados a cabo em instituições paulistas como o Instituto do Coração (InCor) e o Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese. Também teve repercussão uma inovadora técnica de redução de ventrículos esquerdos dilatados, inventada pelo cirurgião paranaense Randas Batista.

Vinte grupos brasileiros que estudam o metabolismo oxidativo das células  produziram dez artigos que alcançaram mais de cem citações. Um dos destaques  foram os cinco artigos da equipe de Aníbal Vercesi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Seus trabalhos ajudaram a entender as relações entre as atividades da mitocôndria e a morte celular. Outros três trabalhos são do grupo de Ohara Augusto, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o uruguaio Rafael Radi. Os artigos resultam de uma pesquisa que reportou a formação de um radical de carbonato, composto até então desconhecido em organismos vivos.

Sete artigos sobre catálise química evidenciam o sucesso das pesquisas coordenadas por Jairton Dupont e Roberto F. de Souza, professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1992, eles desenvolveram novos sais fundidos, líquidos à temperatura ambiente, altamente estáveis, que encontraram ampla aplicação na indústria química. O grupo conseguiu produzir diversos líquidos iônicos, garantindo aplicações em vários campos da ciência. O trabalho foi feito em parceria com a Petrobras.

O seqüenciamento genético foi responsável por três artigos brasileiros de grande repercussão. O principal deles foi o do genoma do fitopatógeno Xylella fastidiosa, que mereceu a capa da revista Nature em 13 de julho de 2000. A Xylella é responsável pela praga agrícola do “amarelinho”. O seqüenciamento foi propiciado por um programa coordenado pela FAPESP, que organizou a rede vinculada a instituições paulistas. “É cedo para concluir se essa é a melhor forma de alcançar a excelência em biologia molecular”, diz Meneghini. “Mas houve um ganho fundamental na nossa capacidade de organizar redes de pesquisa em nível nacional.”

A pesquisa brasileira em neurociências produziu 16 artigos de alto impacto. Um dos grupos que se destacaram, no campo da farmacologia experimental, é liderado por Frederico Graeff, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, e busca compreender o efeito de drogas que aliviam ou produzem ansiedade no comportamento de ratos. O time com mais artigos é o de Iván Izquierdo, então da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que investiga os mecanismos da memória. O farmacologista Xavier Albuquerque, das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e de Maryland, nos Estados Unidos, pesquisa os aspectos biofísicos da transmissão sináptica nos neurônios. Um dos artigos em neurociências tem um autor brasileiro, Luiz Antônio Baccalá, da USP, mas foi conduzido num laboratório da Universidade Duke, nos Estados Unidos, comandado pelo brasileiro Miguel Nicolelis, conhecido por seus trabalhos com conexões sensomotoras (veja reportagem). Meneghini e Packer observam que tanto Xavier Albuquerque quanto Miguel Nicolelis foram estudantes de César Timo-Iaria, pesquisador da USP e pioneiro nas neurociências no Brasil, que morreu em 2005.

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