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Ciência
| Medicina
Mais atenção ao coração feminino
Maioria dos médicos não alerta mulheres para o risco de infarto, embora mortalidade seja próxima à masculina
© Abiuro

Andam tratando mal o coração das mulheres. Estudos realizados na Europa e nos Estados Unidos indicam que ainda hoje a saúde cardíaca feminina recebe menos atenção que a masculina, embora o infarto seja há anos considerado uma das principais causas de morte no mundo todo – e não apenas entre os homens. Dos 7,2 milhõesde  pessoas que a cada ano perdem a vida em conseqüência de problemas cardíacos, cerca de 3,4 milhões são mulheres, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Apesar de os números sugerirem que a diferença não é tão grande assim, boa parte dos médicos ainda não parece estar convencida.

Uma das provas mais contundentes é um estudo publicado no primeiro semestre deste ano na Circulation, a mais importante revista em cardiologia clínica. Parte do projeto Women at Heart, lançado em 2005 pela Sociedade Européia de Cardiologia com o objetivo de chamar a atenção dos médicos para a saúde cardiovascular da mulher e aprimorar o tratamento dispensado a elas, o estudo envolveu a colaboração de 197 centros de cardiologia europeus e acompanhou durante um ano o atendimento dado a 2.197 homens e 1.582 mulheres, com idade entre 50 e 72 anos e diagnóstico de angina peitoral: aquela intensa dor no peito que queima feito brasa e se espalha para o pescoço e as costas, causando falta de ar e deixando o braço esquerdo dormente – em geral o primeiro sinal de que o coração não anda nada bem.

O trabalho mostrou que na consulta inicial a probabilidade de receber indicação para passar por um teste em que se acompanha o desempenho do coração durante o esforço físico – eletrodos colocados no peito registram o ritmo dos batimentos cardíacos enquanto se caminha em uma esteira – foi menor entre as mulheres do que entre os homens. Elas também receberam menos indicação de passar por um exame chamado angiografia, que investiga o estado das artérias do coração, do que os voluntários do sexo masculino. Os médicos prescreveram com mais freqüência medicamentos para evitar a coagulação do sangue ou reduzir o nível de colesterol para os homens do que para as participantes do estudo, mesmo depois de confirmado o diagnóstico de doença cardíaca. Entre as mulheres foi menor a chance de receber um implante de vasos para restabelecer o fluxo de sangue para o coração. Como já se deveria esperar, o risco de sofrer um infarto – fatal ou não – foi duas vezes maior entre as mulheres do que entre os homens.

“Os resultados desse estudo indicam uma subutilização sistemática de métodos diagnósticos e de tratamentos com as mulheres em comparação com os homens, embora ambos os grupos tivessem recebido o diagnóstico de cardiologistas e a angina das mulheres fosse mais intensa”, escreveu a epidemiologista Viola Vaccarino, da Universidade Emory, Estados Unidos, em um comentário sobre o estudo publicado na mesma edição da Circulation. Segundo a epidemiologista, a menor utilização de exames não-invasivos no estágio inicial da doença traduz-se em atraso no diagnóstico e em danos mais graves à saúde. “É importante combater a crença disseminada de que as mulheres não desenvolvem doenças cardíacas, exceto em idade avançada”, escreveu Sharonne Hayes, da Clínica Mayo, Estados Unidos, em artigo publicado este mês na Nature Clinical Practice.

Talvez seja cedo para afirmar, mas o trabalho da Circulation pode justificar uma descoberta feita por Viola Vaccarino no final da década passada. Analisando dados de 380 mil pessoas com idade entre 30 e 89 anos que haviam sofrido infarto, ela constatou que a perspectiva de recuperação era pior entre as mulheres que entre os homens – a situação era ainda mais crítica para aquelas em que o problema havia surgido antes dos 60 anos. Também levantou duas possíveis explicações para esse cenário: o diagnosticado é muito tardio entre as mulheres ou só se identificam os casos graves.

Exceto essa dúvida que intriga pesquisadores do mundo todo, o estudo europeu deixa – ou deveria deixar – mais alertas os cardiologistas, ginecologistas e os outros médicos que cuidam da saúde feminina nos países desenvolvidos e também no Brasil. Afinal, por aqui as doenças do coração também estão entre as que mais ceifam vidas desde a década de 1960 – perdem apenas para o acidente vascular cerebral, também conhecido como derrame. E a proporção entre os sexos de morte por problemas cardíacos não é tão desigual: para cada duas mulheres que morrem por infarto três homens se vão porque o coração deixa de bater de um momento para outro. Registros do banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSUS) indicam que as mulheres somam 40% das 80 mil pessoas mortas por infarto em 2004 – entre elas, os problemas cardíacos estão até mesmo à frente do câncer. Em algumas capitais brasileiras a taxa de mortalidade por problemas cardíacos superava, em meados da década de 1980, os índices masculinos de países como a Inglaterra e a Finlândia, constatou o epidemiologista Paulo Lotufo, superintendente do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP).

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