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Golpe no orgulho vão
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Genômica comparativa - Uma área que sai em alta com a publicação das seqüências presentes em nosso DNA, por mais que as analogias tendam a jogar por terra o antropocentrismo humano, é a genômica comparativa. Já se sabia que o tamanho do genoma - a quantidade de pares de bases - não guarda relação com o status evolutivo de um organismo. Um protozoário, a Amoeba dubia, tem 670 bilhões de pares de bases em seu genoma - 220 vezes maior que o humano. E não é só esse ser que bate o Homo sapiens. Até o cachorro, nosso melhor amigo, deixa o homem para trás: o Canis familiares deve ter uns 100 milhões de pares a mais que seus donos.

Nossa quantidade de genes, depois das novas projeções rebaixada para 30 mil, também deixou de ser, por si só, motivo de orgulho para a espécie. A popular mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) tem mais de 13 mil genes; o verme Caenorhabditis elegans, 19 mil; e a Arabidopsis, 25 mil. Sem falar na cana-de-açúcar, mapeada parcialmente em São Paulo e já com cerca de 80 mil genes. Para quem acredita que o homem é um ser único, as más notícias brotam de todos os lados. Segundo o consórcio público, os cromossomos humano e do camundongo apresentam muitas semelhanças: há no mínimo 200 segmentos com pelo menos dois genes comuns e na mesma ordem. "As comparações com o camundongo vão ajudar a identificar novos genes humanos", diz Sandro José de Souza, coordenador de bioinformática do Genoma Humano do Câncer.

Na genômica comparativa, o DNA do ser humano é colocado lado a lado com o de outros organismos. As conclusões podem ser surpreendentes. "Geneticamente, nós nos parecemos mais com as plantas do que com os fungos, diferentemente da filogenia, que põe as plantas e os fungos juntos", comenta Carlos Frederico Martins Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP). Após analisar 120 genes de reparo de DNA - os guardiães do genoma, que consertam os danos que ocorrem nessa molécula -, ele e sua equipe encontraram notáveis semelhanças e, ao mesmo tempo, nítidas diferenças entre os genomas do homem, animais, leveduras (fungos), bactérias e plantas (cana-de-açúcar e Arabidopsis).

Um mesmo gene pode ser encontrado em diversas espécies, mas as plantas, por exemplo, podem ter genes só encontrados no homem ou típicos de bactéria - ou não ter genes indispensáveis a outros organismos. "O pioréquando a gente nãoencontra nada nessas comparações de genoma. Nesses casos, temos de procurar novamente até ter a certeza de que não existe nada em comum mesmo", comenta Valéria Rodrigues de Oliveira, da equipe de Menck. No final do ano passado, ela encontrou pela primeira vez um gene de reparo de bactéria em humanos - o mesmo que, depois se viu, funciona em cloroplastos, compartimentos das células vegetais em que se realiza a fotossíntese. "A troca de genes entre organismos é muito mais intensa do que pensávamos", afirma Menck. "Genomas são misturas de genomas."

A questão das raças - As duas seqüências quase completas do genoma humano trouxeram novas evidências de que, pelo menos do ponto de vista genético, não há diferenças significativas que justifiquem a noção de raça para qualificar seres humanos. O genoma de uma pessoa é igual em 99,99% de sua composição quando confrontado com o DNA de qualquer outro indivíduo na face da Terra - branco, preto, amarelo ou de origem indígena. A Celera estima que as diferenças entre o genoma de duas pessoas se resumam a 1.250 pares de bases com "letras" distintas. O artigo da empresa afirma que as diferenças genéticas entre pessoas que pertencem a uma mesma etnia podem até ser maiores do que entre dois indivíduos de raças distintas.

A notícia, obviamente, é boa e contribui - espera-se - para diminuir o preconceito racial. Mas não se pode interpretá-la de forma errada. Sim, somos todos extremamente parecidos no interior de nosso DNA. Mas isso não quer dizer que cada grupo étnico não tenha predisposições genéticas específicas, o que pode aumentar ou diminuir a ocorrência de certas moléstias nessas populações. Causada por uma modificação na hemoglobina, resultante de alterações em um gene, a anemia falciforme tem, por exemplo, maior ocorrência na população negra. Já o outro tipo de anemia, a talassemia, também provocada por alterações genéticas beta, apresenta maior incidência em indivíduos de origem mediterrânea. "Em alguns casos, pessoas de diferentes etnias podem ter respostas distintas para uma mesma droga. Isso tem de ser levado em conta na hora de se desenvolver medicamentos", diz Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e pesquisadora do Instituto de Biociências da USP.

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